Por Cintia de Freitas, CEO e fundadora da Datta Büsiness*
A burocracia é um dos fatores que mais consomem tempo e recursos das pequenas e médias empresas brasileiras, especialmente em negócios com equipes enxutas. Organização de documentos, conferência de informações, atualização de cadastros, acompanhamento de processos e consolidação de dados são atividades necessárias para manter a operação funcionando, mas que, quando realizadas de forma manual, podem ocupar uma parcela significativa da rotina. O resultado é que profissionais acabam dedicando horas a tarefas operacionais que não estão diretamente relacionadas ao crescimento do negócio.
O problema se torna ainda mais evidente quando a empresa precisa lidar com informações espalhadas em planilhas, documentos, sistemas e diferentes fontes. Mesmo atividades simples podem exigir diversas etapas de conferência e validação, aumentando o tempo necessário para chegar a uma informação confiável. Para uma grande companhia, esse trabalho pode ser distribuído entre diferentes áreas e profissionais. Nas PMEs, porém, é comum que poucas pessoas concentrem funções administrativas, financeiras, comerciais e estratégicas, tornando o tempo um dos recursos mais escassos da operação.
A implementação gradual da Reforma Tributária, por exemplo, exige que empresas acompanhem novas regras e façam ajustes em processos e sistemas. Mais do que a complexidade de uma mudança específica, situações como essa mostram como a capacidade de organizar informações e adaptar rapidamente os processos internos se tornou importante para empresas de todos os portes. Para as empresas que normalmente não contam com grandes estruturas dedicadas a essas atividades, encontrar formas de reduzir o trabalho operacional pode fazer uma diferença significativa.
A questão, portanto, não está apenas em quanto uma empresa trabalha, mas em quanto tempo é consumido para fazer atividades que poderiam ser simplificadas. Localizar informações, conferir dados, transferir conteúdos entre sistemas, identificar inconsistências e produzir relatórios são tarefas que, quando repetidas diariamente, representam um custo de produtividade que nem sempre aparece claramente nos indicadores financeiros. Ao longo de uma semana ou de um mês, porém, essas horas acumuladas podem significar menos tempo para atender clientes, prospectar oportunidades, desenvolver produtos ou pensar em novas estratégias.
É justamente nesse espaço que a inteligência artificial começa a ganhar relevância para os pequenos e médios negócios. Em vez de ser vista apenas como uma tecnologia voltada à criação de textos, imagens ou campanhas, a IA pode ser utilizada para lidar com processos internos, organizar informações, cruzar dados, resumir documentos, identificar padrões e sinalizar situações que merecem atenção. O objetivo não é simplesmente automatizar por automatizar, mas reduzir o tempo gasto em atividades repetitivas e liberar as pessoas para tarefas que dependem de análise, criatividade e tomada de decisão.
O estudo Transformação Digital nos Pequenos Negócios 2025, do Sebrae, aponta que 44% dos empreendedores de micro e pequenas empresas afirmam ter utilizado algum tipo de inteligência artificial em suas operações. Quando a pesquisa considera especificamente plataformas como ChatGPT, Gemini, Copilot e DeepSeek, o índice chega a 51%. Os números mostram que a discussão sobre IA entre os pequenos negócios já ultrapassou a fase da curiosidade e começa a avançar para aplicações práticas.
No ambiente operacional, esse potencial está principalmente na capacidade de lidar com grandes volumes de informação e reduzir o esforço necessário para encontrar, organizar e interpretar dados. Uma empresa que mantém informações distribuídas entre planilhas, documentos e sistemas, por exemplo, pode utilizar ferramentas de IA para facilitar consultas, cruzar dados, resumir documentos, identificar padrões e sinalizar possíveis inconsistências. Em vez de dedicar boa parte do expediente à procura e organização dessas informações, o profissional pode utilizar esse tempo para analisar os resultados e tomar decisões a partir deles, o que é especialmente relevante em equipes pequenas, nas quais cada hora disponível pode fazer diferença.
A utilização da IA nesse contexto não significa substituir profissionais ou eliminar a necessidade de conhecimento especializado, mas permitir que as pessoas deixem de concentrar sua rotina em atividades que exigem principalmente repetição e organização. Questões que dependem de experiência, julgamento e responsabilidade técnica continuam exigindo participação humana, enquanto tarefas operacionais podem ser apoiadas pela tecnologia. Essa combinação permite que profissionais de áreas como financeiro, administrativo, comercial e atendimento dediquem uma parcela maior do tempo a atividades que exigem relacionamento, análise e tomada de decisão, sem abrir mão dos controles necessários para a operação.
Para alcançar esse resultado, a adoção da tecnologia precisa começar pela identificação dos processos que mais consomem tempo dentro da empresa, dos pontos em que os erros são mais frequentes e das informações que permanecem dispersas entre diferentes ferramentas. A partir desse diagnóstico, torna-se possível selecionar aplicações de IA que estejam relacionadas a problemas concretos da operação, em vez de adotar soluções apenas porque são novas ou estão em evidência. O retorno também pode ser acompanhado de maneira mais objetiva quando a empresa mede quanto tempo era gasto anteriormente em determinada tarefa e quanto passou a ser necessário depois da automação ou do apoio da tecnologia.
Esse ganho de produtividade precisa ser analisado não somente pela quantidade de tarefas que uma ferramenta consegue executar, mas principalmente pelo que os profissionais conseguem fazer com o tempo que foi recuperado. Se uma solução reduz as horas dedicadas a atividades operacionais e permite que a equipe se concentre mais no atendimento aos clientes, na prospecção, no planejamento ou no desenvolvimento de novos produtos, o benefício ultrapassa a eficiência de um processo específico e passa a impactar a capacidade de crescimento da empresa. Para negócios que trabalham com estruturas enxutas, essa diferença pode ser especialmente importante porque permite ampliar a capacidade de execução sem necessariamente aumentar a equipe na mesma proporção.
A inteligência artificial, portanto, pode desempenhar um papel cada vez mais estratégico nas pequenas e médias empresas justamente por ajudar a transformar tempo e informação em recursos melhor aproveitados. Em um ambiente marcado por mudanças constantes, novas demandas dos consumidores e maior volume de dados, a competitividade não depende apenas da capacidade de investir em tecnologia, mas de saber onde ela pode gerar valor concreto para a operação. Utilizar IA para reduzir o peso das tarefas repetitivas representa a possibilidade de devolver às pessoas o tempo necessário para pensar, decidir, atender melhor os clientes e criar novas oportunidades para o negócio.
*Cintia de Freitas, especialista em marketing com sólida experiência no setor de shopping centers, e CEO e fundadora da Datta Büsiness, empresa brasileira especializada em Inteligência Artificial aplicada aos negócios

