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Quando um processo contra o INSS vira precatório e o que muda quando é de natureza alimentar

Redação
Last updated: 25/06/2026 8:21 AM
Redação
Published: 25/06/2026
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Quando a Justiça condena o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ao pagamento de um benefício, a decisão abrange duas obrigações distintas: o pagamento mensal do benefício dali em diante e o ressarcimento dos valores retroativos de todas as parcelas que deveriam ter sido pagas desde o reconhecimento do direito. É esse montante acumulado que determina se o credor receberá por meio de uma Requisição de Pequeno Valor (RPV) ou de um precatório judicial.

Contents
  • Da sentença ao depósito: as etapas e os prazos
  • Precatório alimentar: o que significa e por que importa
  • O que fazer nessa situação com INSS

 

O Art. 100, § 3º da Constituição Federal estabelece o critério: valores retroativos de até 60 salários (equivalente a R$ 97.260 em 2026 mínimos) são pagos por RPV, instrumento mais ágil, com prazo médio de 60 dias. Acima desse valor, o pagamento obrigatoriamente segue o rito dos precatórios, com inclusão na fila orçamentária do governo federal.

 

“Na prática, a maioria dos processos previdenciários supera esse patamar por uma razão simples: a demora do próprio sistema. Um benefício negado em 2020 e reconhecido judicialmente cinco anos depois gera um passivo que combina parcelas atrasadas, correção monetária e juros de mora. Para um benefício de R$ 2.000 mensais, cinco anos de retroativos somam mais de R$ 120 mil, sem contabilizar os acréscimos legais. O limite da RPV fica para trás com facilidade”, explica Giovani Junior, diretor comercial da PJUS, empresa especializada em negociação de precatórios e ativos judiciais.

 

Da sentença ao depósito: as etapas e os prazos

Entre a sentença favorável e o efetivo recebimento do valor, o credor percorre um trajeto com múltiplas etapas, cada uma com seu próprio prazo, destaca Giovani:

 

  • Fase recursal: O INSS recorre em praticamente todos os casos, por política institucional. O processo sobe ao Tribunal Regional Federal e, dependendo da matéria, pode alcançar instâncias superiores. Essa fase consome meses — em casos mais complexos, anos.
  • Trânsito em julgado: Com o esgotamento dos recursos, o direito do credor se torna irrevogável. Este é o marco a partir do qual se inicia a fase executória.
  • Liquidação e homologação dos cálculos: Um perito ou contador judicial apura o valor exato devido, aplicando índices de correção e juros de mora. O INSS costuma contestar os cálculos, o que prolonga essa fase entre seis meses a um ano.
  • Expedição do ofício requisitório: Com os cálculos homologados, o juiz expede o ofício. Se o valor for superior a R$ 97.260, o documento se transforma em precatório e é encaminhado ao tribunal competente.
  • Fila orçamentária: A Emenda Constitucional 136/2025 alterou o marco de inclusão no orçamento para 1º de fevereiro. Precatórios expedidos até essa data em um ano devem ser pagos até o final do ano seguinte.
  • Depósito e saque: O valor é depositado em conta judicial. O credor saca mediante alvará.

 

“O tempo total, contado do trânsito em julgado até o efetivo recebimento, oscila entre um e três anos para precatórios federais. O Conselho da Justiça Federal (CJF) programou os pagamentos do ciclo de 2026 para a primeira quinzena de abril. Precatórios expedidos após abril de 2025, porém, aguardam o ciclo de 2027”, diz.

 

Precatório alimentar: o que significa e por que importa

Nem todos os precatórios ocupam a mesma posição na fila. O Art. 100 da Constituição Federal distingue três categorias, com tratamentos distintos, conforme explica Giovani:

 

Precatórios alimentares: abrangem créditos decorrentes de salários, vencimentos, proventos, pensões, benefícios previdenciários, indenizações por morte ou invalidez. Os precatórios do INSS se enquadram nessa categoria. Por força constitucional, têm fila própria e prioridade sobre os precatórios comuns.

 

Precatórios superpreferenciais: subcategoria dos alimentares, destinada a credores com mais de 60 anos, portadores de doenças graves ou pessoas com deficiência, conforme o Art. 100, § 2º da Constituição Federal. Esses credores recebem com prioridade máxima, respeitado o teto de três vezes o valor da RPV, correspondente a aproximadamente R$ 291.780 em 2026. Se o crédito superar esse montante, o excedente permanece na fila comum de alimentares.

 

A distinção tem peso prático relevante. Por serem alimentares, os precatórios do INSS não concorrem com a maioria dos créditos do setor público, como desapropriações, dívidas contratuais, tributos. Dentro da fila alimentar, os credores em situação de superpreferência avançam ainda mais.

 

Um dado relevante: o perfil dos titulares de precatórios previdenciários (aposentados, pensionistas, pessoas com incapacidade) coincide frequentemente com os critérios de superpreferência. “A legislação reconhece essa sobreposição e prevê o acesso à prioridade máxima. No entanto, o benefício não é automático: o pedido precisa ser formalizado nos autos do processo. Quem não requer, não recebe a prioridade”, comenta o executivo e reforça que “precatórios de natureza alimentar têm retenção de Imposto de Renda na fonte, atualmente na alíquota de 3% sobre o valor bruto, com possibilidade de isenção para credores acima de 65 anos, conforme as faixas estabelecidas pela Receita Federal”.

 

O que fazer nessa situação com INSS

Para quem descobre que um processo judicial contra o INSS gerou um precatório, o primeiro passo é confirmar o tipo e a situação do crédito. A consulta é gratuita nos portais dos Tribunais Regionais Federais (TRF1 ao TRF6), utilizando o número do processo no formato CNJ ou o CPF do credor. O Conselho da Justiça Federal (CJF) também disponibiliza acesso centralizado às informações.

 

Com o precatório identificado, três verificações são essenciais. Primeiro, checar se os cálculos de atualização estão corretos. Segundo, confirmar se o credor se enquadra nos critérios de superpreferência e formalizar nos autos o quanto antes, pois a prioridade não é reconhecida de ofício. E terceiro, avaliar se o prazo de espera é compatível com a realidade financeira do momento.

 

“Precatório é um direito reconhecido pela Justiça, garantido pela Constituição, e um crédito que todo titular tem o direito de entender exatamente em que posição está, quais são suas prioridades legais e quais opções tem diante de si. O caminho pode ser longo, mas não precisa ser obscuro”, reforça Giovani.

 

Conhecer as etapas, os prazos e os direitos específicos nos precatórios de INSS permite tomar decisões informadas sobre o que fazer enquanto a fila avança. A navegação por esse processo se torna menos complicada quando o credor conta com orientação jurídica adequada, seja do advogado que conduziu a ação original, seja de profissionais especializados no acompanhamento de precatórios.

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