Por Vinícius Soares, sócio e diretor de produto da Turivius*
A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina de escritórios de advocacia e departamentos jurídicos, reduzindo o tempo necessário para pesquisas jurisprudenciais, revisão de documentos e localização de precedentes. O avanço dessas ferramentas tem ampliado a produtividade das equipes, mas também despertado uma discussão importante: até que ponto a automação pode interferir na formação dos profissionais que estão iniciando a carreira? A preocupação é especialmente relevante em um momento em que grande parte do aprendizado jurídico acontece durante a execução de atividades que, cada vez mais, podem ser realizadas por sistemas inteligentes.
Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2025, 45,8% dos tribunais brasileiros já utilizavam inteligência artificial generativa, demonstrando que a tecnologia deixou de ser uma tendência para se tornar parte da rotina institucional do Judiciário. À medida que seu uso se expande, cresce também a necessidade de compreender seus impactos sobre a formação e a atuação dos profissionais do Direito.
Parte desse debate decorre da percepção de que a IA elimina etapas tradicionalmente associadas ao desenvolvimento do raciocínio jurídico. Antes, encontrar um precedente exigia definir estratégias de busca, consultar diferentes bases de dados, analisar dezenas de decisões e interpretar os fundamentos apresentados pelos tribunais. Hoje, esse mesmo processo pode ser realizado em poucos minutos por ferramentas capazes de localizar informações relevantes com rapidez e precisão.
Embora a tecnologia organize informações, localize precedentes e sugira caminhos, continua sendo responsabilidade do profissional verificar a consistência das decisões encontradas, compreender o contexto do caso, avaliar a aplicabilidade dos argumentos e definir a estratégia jurídica mais adequada. Em outras palavras, encontrar informações não equivale a tomar decisões.
Um dos principais questionamentos levantados por sócios e gestores de escritórios é o impacto da IA sobre a formação dos profissionais. Durante muito tempo, boa parte do aprendizado acontecia enquanto o advogado pesquisava um tema, comparava entendimentos e percorria dezenas de decisões até chegar ao precedente mais adequado. Esse contato repetido com diferentes interpretações e fundamentos construía, de forma quase espontânea, um repertório que ia muito além da resposta encontrada.
Isso não significa, contudo, que o aprendizado deixe de existir. Ele muda de natureza. Se antes parte relevante da formação vinha da exposição aprofundada a diferentes teses e decisões dentro de um mesmo caso, o ganho de produtividade proporcionado pela IA permite que o advogado tenha contato, no mesmo período, com uma quantidade muito maior de casos e problemas jurídicos. O aprendizado deixa de depender apenas da profundidade em uma única pesquisa e passa a vir também da amplitude de exposição a diferentes situações, argumentos e contextos.
Segundo pesquisa de 2025 da Clio, a utilização de inteligência artificial por escritórios de advocacia solo e de médio porte saltou de 19% para 93% em apenas um ano, sendo que mais da metade dessas organizações já utiliza a tecnologia de forma ampla em suas operações. Em vez de aprofundar repetidamente um único tema, o advogado passa a ter contato com uma variedade maior de problemas jurídicos, ampliando seu repertório em diferentes áreas.
O resultado dessa mudança depende muito menos da tecnologia do que da forma como ela é incorporada ao trabalho jurídico. Quando utilizada apenas para entregar respostas prontas, a IA pode reduzir o envolvimento do profissional com o processo analítico. Em contrapartida, quando serve para levantar hipóteses, localizar fundamentos e ampliar perspectivas, torna-se um instrumento capaz de enriquecer o raciocínio jurídico e estimular discussões que dificilmente surgiriam por meio de pesquisas tradicionais.
No fim, a discussão nunca foi sobre escolher entre usar ou não inteligência artificial, mas sobre formar profissionais capazes de aproveitar o potencial dessas ferramentas sem abrir mão das competências que continuam sendo exclusivamente humanas. Quanto mais a IA assume tarefas operacionais, mais ganham relevância habilidades como pensamento crítico, interpretação, argumentação e julgamento estratégico, que permanecem no centro da prática jurídica e serão cada vez mais determinantes para a atuação dos advogados.
*Vinícius Soares é sócio e diretor de Produto da Turivius. Especialista em inteligência artificial aplicada ao Direito, lidera o desenvolvimento da plataforma GPTuri. Foi cofundador da fintech Monetus, adquirida pelo Santander, é reconhecido na lista Forbes Under 30 e é formado em Engenharia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Columbia University

