ADH – O Instituto Dom Barreto é reconhecido nacionalmente pela excelência na formação acadêmica. Quais pilares pedagógicos sustentam esse compromisso com a qualidade e o desempenho dos alunos?
Marcela – O Instituto Dom Barreto acredita que investir em educação de qualidade, compromissado com o exercício da cidadania e com a responsabilidade social significa “ajudar a pintar brilhantes amanhãs”. Acreditamos, antes de tudo, no que chamamos aqui no IDB de “o dom dos dias”, porque a escola, toda escola, é feita de encontros todos os dias, pois pensar e dizer uma escola exige reciprocidade e trocas; memórias, histórias, sonhos, e escolhas que fazemos todos os dias. Partindo dessa premissa, o IDB dedica-se diligentemente à proposta educativa do educando, de forma a conciliar Saber, Informação e Experiência, em um processo formativo integral e integrado.
Assim, a Escola orienta seu processo de ensino-aprendizagem para além do sucesso no prossegui- mento dos estudos série a série, buscando também a inserção desse conteúdo nas experiências cotidianas, permitindo a formação de pes- soas intelectual e moralmente autônomas, que sejam livres para refletir, questionar, criticar e transformar a realidade em que vivem, contribuindo efetivamente para que ela se torne melhor. O Instituto Dom Barreto desenvolveu uma proposta pedagógica bem mais ampla do que o currículo mínimo exigido pela legislação educacional. Antecipando-se ao debate acerca de uma educação integral e integrada, optou por redimensionar a carga horária de aulas, de modo a transmitir ao professor e ao aluno não somente um significativo nível de tranquilidade (por demais necessária ao processo de ensino-aprendizagem), mas também a possibilidade de aproximá-los – o professor, o aluno e o saber – através de estratégias multidisciplinares e interdisciplinares, capazes de envolver esses estudantes, conhecer suas necessidades, explorar suas habilidades e apresentar-lhes novas perspectivas, facilitando o aprendizado, ensinando a estudar e a aprender, redimensionando a amplitude cognitiva e estimulando os alunos a refletirem.
Trata-se de avançar sobre o consolidado trabalho com os conteúdos sistematizados, repensando a prática pedagógica a fim de processar a aprendizagem sob múltiplas dimensões, como a perspectiva da cidadania, da diversidade e dos direitos humanos, do pensamento crítico e da autonomia intelectual. Não se trata, portanto, de oferecer “mais tempo da mesma escola”, ou “mais educação do mesmo tipo”; é preciso inserir competências que per- mitam a formação cidadã, ao invés do mero “instrucionismo”; é preciso, ainda, permitir que o aluno tenha acesso a diferentes atividades, que, direta ou indiretamente, conduzam a uma formação integral e integrada.
ADH – A aprovação em universidades de destaque é uma marca do colégio. Como o Dom Barreto prepara seus estudantes para os desafios dos vestibulares mais concorridos do país, especialmente em áreas como Direito?
Marcela – A proposta do Instituto Dom Barreto é fazer coincidir através de diferentes metodologias, desde as aulas expositivas aos laboratórios, nos exercícios de sistematização e de pesquisa – individuais e coletivos-, os saberes cientifica e culturalmente construídos, suas aplicabilidades e impactos ao longo da história da humanidade, bem como a crítica a estes instrumentos e seus usos a partir da experiência contemporânea orientada especialmente para a construção de alternativas que os prepare para promover uma sociedade mais sustentável e mais democrática. Acho importante destacar que estamos falando de um processo que, para a grande maioria dos nossos alunos, começa na Educação Infantil e tem continuidade no Ensino Fundamental.
Este privilégio nos possibilita acompanhá-los desde muito pequenos, ainda descobrindo a si e o mundo. No Ensino Médio, o desafio é de promover o aprofundamento do que já foi trabalhado no Ensino Fundamental, considerando os saberes produ- zidos pelas diferentes disciplinas através da ampliação de temas, ques- tões e problemas de modo que este exercício lhes possibilite entender e conhecer o mundo físico, social, cultural e digital no qual eles estão inseridos, ao tempo em que se cuida do aprofundamento e alargamento das habilidades anteriormente conquistadas. Para além da descober- ta e experimentação dos conhecimentos historicamente produzidos, nesta fase desenvolvemos também habilidades e competências gerais conforme o disposto na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), essenciais para a formação integral dos estudantes, a saber: o exercício do pensamento crítico, criativo, cientifico; a valorização e construção de diferentes repertórios culturais; a compreensão das diversas formas de linguagem e seus usos na partilha de ideias, experiências e senti- mentos, assim como na produção de questões e sentidos individuais e coletivos; a elaboração de ideias, posicionamentos e argumentos embasados nos direitos humanos, na preservação do meio ambiente, na convivência com as diferenças, no consumo responsável e na éti- ca; o exercício da empatia, do diálogo, da resolução de conflitos e da cooperação; o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, do autoconhecimento e do autocuidado; a compreensão e experimenta- ção das tecnologias digitais de forma crítica, criativa e ética; a atuação individual e em grupo de forma autônoma e responsável, com base em práticas éticas, igualitárias e inclusivas, sustentáveis e humanitárias. Claro que todo este processo exige de nós, corpo docente e alunos, um alargamento do currículo e do tempo para cumpri-lo, o que é feito com a incorporação de disciplinas complementares, elaboradas por áreas do conhecimento na “grade” comum e também como optativas. Incorporamos ao currículo itinerários formativos que, com o fim do Novo Ensino Médio, estão sendo incorporados como disciplinas complementares com ênfase na questão dos direitos humanos e para os alunos da área da saúde, mas não só uma disciplina sobre saúde no Brasil. Também criamos uma linha de história da América e história da literatura brasileira.
ADH – Muitos ex-alunos do Dom Barreto são hoje profissionais consagrados no cenário jurídico nacional. Como a escola acompanha ou se relaciona com esse legado de ex-alunos que se tornaram referência?
Marcela – Há muito entendemos que esta Escola ultrapassa espaços e tempos formais. O professor Marcílio Rangel dizia que não existe ex-aluno no IDB, mas antigos alunos, e criou condições para que este pressuposto se materializasse na vida cotidiana da escola. Primeiro, foram as moni- torias, onde antigos alunos atuavam como apoio para os desafios da sala de aula. Organizadas por áreas do conhecimento, inclusive para valorizar as habilidades e escolhas individuais dos monitores, as monitorias se destacavam como um incentivo para o jovem formando e como um apoio para os alunos dos segmentos de ensino Fundamental e Médio, mas o projeto extrapolou muitas vezes e em muitos sentidos a prestação de um serviço, tornou-se um caminho para a profissionalização docente de advogados, médicos, químicos, linguistas, engenheiros… que, a partir desta segunda formação, se tornaram professores da escola.
Há também aqueles que voltam para palestrar ou participar das atividades da escola, como a gincana cultural “Teresina, meu amor”, as festas de são João, a semana da cultural ou feiras do conhecimento, todos projetos que já existiam quando eles estudavam aqui, mas eles também vêm como protagonistas nos projetos de formação para a vida profissional, como IDB Start, o Wokshop das profissões, as Olimpíadas do Conhecimento e o IDB pelo mundo, onde podem contar sobre suas formações, suas experiências profissionais e suas expertises.
A experiência como comunidade – a expressão “Comunidade Dombar- retana” foi o modo que encontramos para falar de uma convivência que ultrapassa a Escola e a vida escolar -possibilita estas trocas e a presença rica e única dos antigos alunos, mesmo que só digitalmente, para aqueles que moram em outros estados e/ou em outros países, e há ainda os que voltam como pais, enriquecendo o cotidiano e a vida escolar com sua presença, parceria e olhos amorosamente críticos.
ADH – Em sua visão, qual é o papel da educação básica na formação de futuros juristas comprometidos não apenas com o conhecimento técnico, mas também com valores éticos e responsabilidade social?
Marcela – Ano após ano, a Escola tem crescido, acompanhando os avan- ços de seus estudantes, comemorando cada uma de suas conquistas. Experimentamos e vivenciamos, através da Escola, o pensamento de Nelson Mandela de que “a Educação é a arma mais poderosa para mo- dificar o mundo”, a começar pelas transformações mais imediatas, na vida de cada um daqueles que por aqui passaram.
É acreditando no poder transformador da educação que persevera o Instituto Dom Barreto. E é gratificante desenvolver esse trabalho; os alunos compreendem que a Educação pode ser o caminho para uma significativa mudança de vida. Por isso, é fácil ver o brilho nos olhos de cada estudante; perceber o cuidado que eles têm com a Escola, o carinho pelos professores, a relação quase que familiar com os funcionários e coordenadores – típica de uma comunidade unida.
Queremos conferir aos alunos confiança e autoestima. E fazê-lo através da educação, em todas as suas faces. A escola deve ser o primeiro espaço a viabilizar ao aluno o exercício da cidadania; é lá que deve aprender a reconhecer seus direitos, sendo tratado com a dignidade, o respeito e os valores essenciais à cidadania. Dessa forma, tornar-se-á, ao lado da Instituição, agente transformador de sua realidade.
E nós aprendemos com o professor Marcilio que tudo o que se vive na escola deve nos interessar muitíssimo: cada gesto, cada palavra, cada silêncio, cada sorriso, cada dúvida, cada alegria, cada dor, cada resposta e cada recusa, cada encontro e cada desencontro porque, para ele, todos nós erámos pessoas únicas e muito especiais.
Com ele também aprendemos que tudo o que se vive na escola é impor- tantíssimo para aqueles que estudam e para nossa cidade, nosso estado, nosso país, nosso planeta, porque a escola é casa, como também é casa nossa cidade, nosso mundo. Um mundo de paz e bem.
ADH – Por fim, que mensagem a senhora gostaria de deixar para os estudantes que sonham com uma carreira no Direito e que hoje trilham esse caminho ainda nos bancos escolares?
Marcela – Acreditamos que todos, e que cada um que aqui chega, vêm para ser sementinha desta árvore que se pretende casa e abrigo para todas as crianças, somos esperançosos e sonhadores todos os dias por- que acreditamos que a escola, esta e todas as escolas, são sementeiras de pessoas comprometidas com um mundo melhor: mais abrangente e mais exigente com o cumprimento dos direitos básicos e universais; com a inclusão dos neurodivergentes; mais tolerante com as diferenças; mais atuante com a preservação do planeta.
Como sustentamos estas esperanças? Ah, primeiro somos alimentados, estimulados, desafiados por cada convivência que nos alimenta como seiva e que se transforma numa energia muito poderosa que se espalha por todo o mundo e vai incorporando muitos outros: A COMUNIDADE DOMBARRETANA. Esta rede de afetos sempre renovados, apesar das dificuldades, das dores e das inevitáveis perdas, é extensa e intensa já que, entre nós, não existem ex-alunos, mas antigos alunos que, para nossa alegria, compartilham o compromisso de tentar serem sempre o melhor de si como filhos, como pais, como amigos e como profissio- nais. Seus exemplos iluminam o nosso dia a dia e tonificam os nossos sonhos de futuro.
