Muitas vezes, na visão dos pequenos e médios empresários, o jurídico ainda é acionado quando o problema já chegou, como uma ação trabalhista, um conflito entre sócios, um contrato que não protege adequadamente a operação, uma exposição digital, uma cobrança que não avançou, uma demissão que virou risco ou uma decisão urgente que precisa ser tomada sob pressão.
Para a advogada e empresária Cris Dorneles, esse modelo pode sair caro, não apenas para o caixa da empresa, mas também para quem está à frente dela.
Com 20 anos de experiência, ela defende uma mudança de mentalidade na advocacia B2B, onde o jurídico não deveria ser visto apenas como uma área acionada para resolver problemas, mas como parte da construção de uma empresa mais preparada para tomar decisões, crescer e atravessar momentos de pressão. ‘’Depois que o problema já está em andamento, tem maiores chances de ser irreversível. E os danos, vão muito além do dinheiro’’, revela Cris.
A lógica é a prevenção. Na prática, isso significa olhar para além da questão jurídica isolada. Uma contratação, a relação entre sócios, contratos, uma política interna ou decisão trabalhista, podem produzir efeitos sobre a capacidade de crescimento de uma companhia. Muitas vezes, consultorias olham para processos internos, mas ignoram as questões jurídicas, que está 100% associada à solidez necessária para um crescimento saudável.
“O jurídico não deveria entrar na vida de uma empresa apenas quando alguma coisa deu errado. Quanto mais próximo o advogado estiver da operação e das pessoas que tomam as decisões, mais cedo ele consegue identificar um risco, organizar uma relação ou provocar uma decisão que evite um problema lá na frente. E isso não é só sobre evitar um processo ou uma perda financeira, mas sim preservar aquilo que hoje talvez seja um dos ativos mais importantes de qualquer empresário: tempo e energia para pensar no negócio. Quando o dono passa boa parte do dia resolvendo problemas que poderiam ter sido prevenidos, ele perde dinheiro, mas também perde foco, tranquilidade e capacidade de decidir. Por isso eu montei uma metodologia interna no meu escritório, onde meu time de advogadas esteja perto o suficiente para enxergar toda a realidade dos nossos clientes, porque uma decisão trabalhista, um contrato ou um conflito entre sócios nunca afeta só o jurídico. Afeta caixa, operação, pessoas, reputação e, muitas vezes, o futuro da empresa’’, enfatiza Dorneles.
Essa visão foi construída ao longo de uma trajetória profissional marcada justamente pela capacidade de antecipar problemas. Formada em Direito pela PUCRS, Cris Dorneles começou a acumular experiência ainda durante a graduação. Em determinado momento, chegou a lidar com mais de 700 processos enquanto estudava e trabalhava. Ao longo de duas décadas, construiu uma atuação próxima de empresários e empresas. Hoje, circula por ambientes de empreendedorismo, mentoria, inovação, tecnologia e negócios digitais, ampliando sua compreensão sobre os desafios que surgem conforme uma empresa muda, cresce e ganha complexidade.
‘’Pegamos muitos casos de conflitos entre sócios, mas as pessoas se esquecem que esses problemas são jurídicos, mas eles também são humanos, e além de envolver dinheiro e reputação, impactam diretamente na vida e nas relações dessas pessoas. A nossa missão é ajudar a empresa a sair dessa lógica reativa e construir estrutura para enxergar o todo. A advocacia preventiva pode ser, sim, uma maneira de criar ordem que precede o caos’’, revela Cris Dorneles.
É nesse ponto que Cris enxerga uma oportunidade de mudança, onde o empresário precisa mudar a cultura de anos dentro das companhias, de quem está constantemente reagindo ao próximo problema, e aproximar o jurídico das decisões antes que elas se transformem em prejuízo. Segundo a advogada, só essa nova mentalidade pode melhorar o caixa de uma empresa e auxiliar no plano de reputação interno e externo.
‘’Por trás de todo CNPJ existem pessoas tomando decisões. E todas essas empresas carregam as decisões, padrões, crenças de quem as lidera. Quando há visão do todo, e de longo prazo, o negócio se fortalece. E isso constrói legado e cultura dentro das companhias, afinal, o comportamento e a mentalidade dos líderes regem o grupo, e a empresa se torna um espelho da própria transformação do fundador’’, finaliza Cris.
Para ela, a prevenção jurídica não é apenas evitar um processo, e sim, evitar que o empresário precise gastar dinheiro, tempo e energia para consertar amanhã aquilo que poderia ter sido estruturado previamente. E também, pouco se fala sobre a saúde mental desse empresário que está a frente da operação. O que, na realidade, é um dano incalculável.


