Covid: Bolsistas brasileiros sofrem com impasse sobre restrições sanitárias e criticam atuação do Itamaraty

Condução errática da pandemia de Covid-19, Ministério da Educação enfraquecido e diplomacia desestruturada. A soma desses três fatores causa um verdadeiro drama na vida de centenas de estudantes brasileiros que conseguiram bolsas para realizar graduação, mestrado ou doutorado no exterior.

Sem conseguir controlar a pandemia, o alto número de mortes e o temor pelo espalhamento de variantes colocaram o Brasil nas chamadas ‘listas vermelhas’ de diversos países pelo mundo afora. Assim, muitos estudantes que conseguiram uma chance para seguir seus estudos fora de nossas fronteiras estão sendo prejudicados.

da Silva Morais, 21 anos, é um exemplo deles. O jovem, que estuda Desenvolvimento de Sistemas na Faculdade Anhanguera, em Cuiabá (MT), conseguiu uma bolsa para seguir sua graduação na França, mas a situação sanitária do Brasil o impediu de concretizar o sonho.

Aprovado em agosto do ano passado, o jovem aguardou o máximo que pode para conseguir a liberação para entrar no país, fato que não aconteceu. Agora, já no fim da graduação, o próximo semestre europeu (que se inicia em setembro) seria sua última chance.

Recentemente, a França passou a aceitar brasileiros totalmente imunizados contra a Covid-19 dentro de suas fronteiras. Contudo, Cuiabá ainda realiza a vacinação da faixa dos 40 anos, muito longe da idade de Matheus.

“É muito frustrante. Você faz a prova, consegue ser aprovado com dedicação, mas não é o suficiente. A gente ficou esperando que o governo agisse rápido para nos ajudar. Eu estava fazendo até uma poupança, juntando o dinheiro, mas não foi possível”, lamenta o jovem estudante, que agora planeja seguir estudando de olho em uma nova bolsa, desta vez em Portugal.

Brasileiros esbarram já na emissão de vistos

Isabela Casquer, 24 anos, é um exemplo de estudante que está com a vida paralisada devido ao impasse sanitário entre Brasil e países europeus. Formada em pedagogia pela USP Ribeirão Preto, ela conseguiu ser aprovado para um mestrado em Políticas Educacionais, com primeiro semestre previsto para Barcelona (Espanha) e o segundo em Bremen (Alemanha).

Após bater a concorrência de cerca de 500 candidatos, ela ainda não tem certeza sobre o seu futuro. “Minha aprovação saiu em abril. Fiz o agendamento no consulado espanhol, entreguei minha documentação toda correta, mas fui informada que a emissão de visto está suspensa”, explica a professora ao Yahoo!

Segundo ela, a Espanha tem permitido a entrada apenas de residentes permanentes ou cidadãos espanhóis, tendo renovado as restrições por doze vezes consecutivas.

“Já faz um mês que meu passaporte está retido no consulado. Estou no aguardo de atualizações. Que eu saiba, há mais de 400 estudantes à espera do visto. Nosso semestre já começa em setembro e eu tenho aula marcada para o dia 13, em território espanhol”. Segundo ela, não há sinalização, por ora, de que as aulas possam ser ministradas à distância.

Aos 29 anos, Fábio Cabral de Oliveira vive situação semelhante. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Alagoas, ele concluiu um mestrado na USP em dezembro de 2020 e já começou a buscar universidades no exterior para realizar um doutorado.

Em abril de 2021, ele recebeu o aceite para seguir seus estudos na Universidade Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, com as despesas pagas pela própria instituição. Ainda assim, Fábio aguarda o seu visto, que ainda não pode ser emitido por restrições a brasileiros no país europeu.

“Oficialmente o doutorado já começou em 1° de julho. Estou trabalhando, na medida do possível, à distância. Ainda assim, meu projeto demanda muita prática experimental, ações que dependem do laboratório da universidade, por isso preciso ir o quanto antes”, conta o morador de Maceió. Por lá, a vacinação ainda está na faixa dos 32 anos, fora do alcance de Fábio.

Ao Yahoo!, Fábio relatou a rotina de ansiedade que os estudantes nessa condição têm vivido. “Vamos dormir e acordamos pensando nisso. Ficamos checando o site toda hora, olhando a lista de restrições. Estamos fazendo o que podemos, mas há uma sensação de impotência”, diz o engenheiro.

Ele também admite que há uma percepção de que a diplomacia brasileira não tem atuado da forma mais eficaz. “Ficamos fazendo essa comparação [com outros países]. Muita coisa não faz sentido, liberaram estudantes indianos [país que também possui índices ruins da pandemia], por exemplo, mas não liberaram a gente”.

Estudantes se mobilizam para cobrar urgência

Estudantes brasileiros com bolsa para estudar na Espanha organizam movimento para pressionar autoridades - Foto: Reprodução/Instagram

Isabela e Fábio contaram ao Yahoo! que centenas de estudantes têm se organizados para cobrar medidas das autoridades competentes. A articulação e a cobrança têm sido feita em grupos de Whatsapp e perfis em redes sociais.

A professora faz parte do movimento #EstudiarEsEsencial [‘Estudar é essencial’, em português], que reúne estudantes que possuem bolsas e precisam urgentemente viabilizar a entrada na Espanha.

“Tentamos chamar a atenção de diversos políticos, de membros do Itamaraty, consulados e outros órgãos. É um movimento muito organizado e me senti muito contemplada”, diz ela, que conta que o grupo aguarda novidades quanto a sua situação ainda nessa terça-feira (27), quando membros do Ministério da Saúde espanhol devem discutir a questão em uma reunião.

A reportagem do Yahoo! entrou em contato com Fábio ao acessar um grupo de Whatsapp chamado “Étudiants BR en Belgique” [Estudantes Brasileiros na Bélgica, em tradução livre]. Há até uma petição para pressionar as autoridades a agilizar a entrada de brasileiros no país.

“Achamos que, em grande parte, essas restrições contra brasileiros têm um aspecto político. Se não fosse pelo grupo de estudantes, não saberíamos com clareza o que está sendo feito para resolver nossa situação. Isso [mobilização de bolsistas] é a única coisa que traz um pouco de conforto”, admite Fábio.

A professora lembra ainda que a questão do visto não é o único entrave burocrático a ser resolvido por estudantes em situação como a dela e a de Fábio. É necessário solucionar questões como passagem área, moradia no respectivo país, entre outras.

“É preciso um tempo para planejar como se desligar de sua vida aqui no Brasil. Estamos falando de deixar empregos, carreiras, realizar mudanças de famílias inteiras. Muitos não sabem quando devem entregar suas casas aqui, outros precisam vender bens. Além de todo esse prejuízo, a demora pode acarretar em uma perda definitiva da bolsa”, alerta Isabela.

O que diz o Itamaraty

Questionado pelo Yahoo!, o Ministério das Relações Exteriores disse estar ciente do problema, mas ressalta que a concessão de vistos é “prerrogativa soberana de cada governo”. Leia, abaixo, a nota na íntegra:

“O Ministério das Relações Exteriores tem conhecimento da dificuldade de estudantes brasileiros em ingressar em outros países, para começar ou continuar seus cursos, em razão de restrições sanitárias de interesse coletivo decorrentes da pandemia de Covid-19 e da suspensão de processamento de vistos por representações consulares estrangeiras no Brasil. Recorde-se que a concessão de vistos é prerrogativa soberana de cada governo.

Por meio de gestões realizadas pelas Embaixadas do Brasil nos países em que se reportou o problema até o momento (Alemanha, Espanha, França, Bélgica, Dinamarca e Itália), o Itamaraty vem fazendo o possível para alcançar solução satisfatória que atenda ao pleito dos estudantes e seguirá realizando contatos com autoridades competentes para que considerem a adoção de medidas alternativas que permitam a retomada da emissão de vistos a estudantes e acadêmicos brasileiros. É importante ressaltar que, a partir de 17/7, a França passou a admitir estudantes brasileiros com o ciclo vacinal do COVID-19 completo”.

Yahoo

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