*Miranda Jr.
Muito tem se falado sobre mercado, políticas públicas, economia prateada, atividade física, autonomia e longevidade. De fato, o envelhecimento populacional é um fator a se preocupar, mas isso traz consigo uma questão omitida, porém de suma importância para o mercado: onde está quem cuida de nós?
Após anos de experiência no mercado de cuidadores, uma das grandes contradições que percebo dentro do ramo é a falta de notoriedade desses profissionais. Segundo uma pesquisa de microdados realizada pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), no Portal Salário, a média salarial de um cuidador no Brasil está entre R$ 1.845,20; o que é considerado baixo em relação a outros países longevos como Alemanha e Japão.
Esse esquecimento não se trata apenas de uma questão financeira, mas também de uma questão cultural. Atualmente, a cultura do cuidador informal ainda persiste dentro das famílias brasileiras, isso favorece a concentração da responsabilidade sobre um único familiar, geralmente uma mulher. Muitas vezes, essa pessoa precisa conciliar o cuidado com o trabalho, as tarefas domésticas e a vida pessoal.
O Brasil continua envelhecendo, e esse serviço se mostra cada vez mais necessário para os familiares em todo o país. O modelo de assistência tradicional ainda é tratado como uma responsabilidade naturalmente atribuída à família, e a necessidade de formação e profissionalização acaba deixada em segundo plano. Isso não apenas limita o desenvolvimento de um mercado estruturado de cuidadores, como também pode colocar em risco a própria pessoa assistida.
A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), analisada em estudo publicado na revista Saúde Pública, aponta a predominância do cuidado informal entre idosos: 81,8% dos que recebiam assistência eram cuidados de forma não remunerada. Entre os mais de 23 mil entrevistados, 62% tinham familiares que residiam no mesmo domicílio como principais responsáveis, enquanto apenas 3,4% contavam com cuidadores contratados.
Com outras palavras, a imagem do cuidador profissional ainda é frequentemente associada a um valor emocional, enquanto sua dimensão técnica e sua importância para a saúde permanecem subvalorizadas.
Em 2024, a expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para quem alcança os 60 anos, a expectativa é viver, em média, mais 22,6 anos. Nesse cenário, reconhecer e profissionalizar o cuidado não é apenas dar voz a uma categoria de trabalhadores, mas preparar o país para uma realidade demográfica que já está diante de nós.
*Miranda Jr. é CEO da Cuidare – rede especializada em cuidados de pessoas


