‘Guru da meditação’ é alvo de nova investigação do Ministério Público de SP por abusos sexuais de ex-alunas e ex-pacientes

Promotoria investiga se equipe de Tadashi Kadomoto sabia dos crimes e não os impediu. Mulheres ouvidas pela GloboNews falam que terapeuta usava ataque ’ninja’ para escolher e atacar vítimas.

O Ministério Público de São Paulo abriu nova investigação para apurar mais denúncias de abusos sexuais envolvendo o terapeuta transpessoal Tadashi Kadomoto e também integrantes da equipe dele, que teriam conhecimento dos casos, mas nada teriam feito para impedi-los. A apuração da Promotoria começou depois que mais quatro ex-pacientes e ex-alunas prestaram depoimentos formais, relatando que foram vitimas de abusos durante treinamentos do Instituto Tadashi Kadomoto e sessões de terapia individuais.

Em outro processo, que já tramita na Justiça de São Paulo, o terapeuta é réu por estupro de vulnerável e lesão corporal grave causado a uma ex-treinanda. Em duas investigações, até o momento, sete mulheres já formalizaram depoimentos contra Kadomoto. Ele nega ter cometido os crimes e gravou um vídeo no dia 12 de outubro, em que fala pessoalmente sobre o caso.

“Tenho falhas, cometo erros como todo ser humano, mas jamais cometi atos criminosos. Tenho fé que tudo será esclarecido e até lá vou me afastar das minhas atividades. Ao longo da história já vimos muitas reputações e famílias destruídas por acusações que depois se mostraram injustas, por isso estou à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários”, disse Kadomoto.

O vídeo foi postado nas redes sociais do terapeuta na madrugada do dia 12 de outubro, após as primeiras denúncias contra ele virem a público. Em nota enviada à reportagem neste sábado (31), o advogado defesa dele, Alexandre Wunderlich, disse que “Tadashi Kadomoto reafirma sua indignação com as acusações envolvendo sua conduta profissional e confia na Justiça” (veja mais abaixo).

Nesta segunda investigação, que está na fase inicial, o MP de SP apura outros crimes, como violação sexual mediante fraude, associação criminosa, curandeirismo e exercício ilegal da profissão. A Promotoria diz que a equipe de Tadashi Kadomoto era formada por mais de 20 profissionais, que acompanhavam os tratamentos e cursos mulheres que o denunciaram. Sete psicólogos e dois médicos já foram identificados. Eles devem ser chamados para prestar depoimentos, assim como o próprio Kadomoto.

“O autor seria o senhor Tadashi, ele é o investigado principal, mas ele agia, em muitos casos, com auxílio material e moral de psicólogos do instituto, tinham até médicos presentes. De acordo com as vítimas que eu ouvi, elas falaram que isso era conhecimento de todos que frequentavam o instituto. Ou no começo do curso, ou no momento que saiam. Os cursos de Expansão da Consciência, que eram compostos por quadro módulos, uma semana a pessoa ficava enclausurada, todas juntas, muitas vezes ficavam em um contexto grupal só com roupas íntimas, e muitas sofreram abuso também de outros alunos, que não tinham sido consentidos. Era outro ambiente que propiciava esse tipo de atuação”, afirmou a promotora de Justiça Celeste Leite dos Santos.

Kadomoto é conhecido como “guru da meditação na pandemia”. Suas lives em redes sociais costumam atrair milhares de seguidores com mensagens de autoconhecimento. Ele também atua há quase 30 anos fazendo terapia transpessoal, que usa hipnose, meditação, regressão e relaxamento.

Ataque “ninja”

As investigações do Ministério Público apuraram que tanto as alunas quanto os funcionários do Instituto Tadashi Kadomoto tinham o apelido de ataque “ninja” para definir a forma como ele agia para escolher as próximas mulheres a serem assediadas.

“No meu curso de Expansão (de Consciência), muitas vezes a minha terapeuta, quando eu passava, ela me abraçava. e ela falava: ‘cuidado com o ataque ninja… cuidado com o ataque ninja.. vc tem o perfil das vitimas…’”, relatou à GloboNews uma das mulheres.

GloboNews foi procurada por quatro mulheres que relataram abusos em diferentes locais e situações. A maioria delas frequentou o Instituto para curar traumas causados por abusos sexuais que sofreram na infância e que, ao longo dos tratamentos e treinamentos, já tinham informações sobre investidas sexuais que Tadashi Kadomoto contra algumas ex-alunas e ex-pacientes. Todas as mulheres ouvidas pediram para não serem identificadas na reportagem.

“Em um determinado momento eu comecei a namorar, e alguns colegas começaram a falar: ‘ah, esse seu namoro não vai durar porque o japa quer você. Você sabe que vai vir o ataque ninja e você sabe que não vai resistir. Isso era algo muito falado pelas pessoas, até dentro da propria equipe, das pessoas que estagiavam la sabiam disso. Enquanto ele não começou o ataque ‘ninja’, eu comecei a ter uma melhora muito significativa. Até porque, além dos cursos, eu passei a fazer terapia, um acompanhamento. Depois de tudo o que passei eu vejo isso como um assédio, como um abuso. Eu ainda tive a sensação de que realmente todos os homens fariam aquilo comigo”, contou outra ex-paciente.

A promotora Celeste Leite dos Santos explicou que os depoimentos confirmam o “modus operandi” de Tadashi Kadomoto: “Não foi uma vítima isolada, um caso específico, mas era um modo de vida. Isso caracteriza que ele estava se usando para fraude, porque a pessoa vai lá fazer um tratamento e não é isso que está sendo realizado”, disse.

“Um dos comentários que eu vi foi: ‘ah, gente, errar é humano’. E eu até respondi: ‘Errar é humano, sim, mas depois que você tem uma segunda, uma terceira, uma quarta (vítima)… Não é mais um erro, é uma escolha. Ele escolheu manipular e continuar fazendo vitimas”, afirmou uma das mulheres que integram a investigação contra o terapeuta.

Abusos durante sessões

“Um dia que eu estava na maca, ele induziu a uma meditação, ele pediu pra eu fechar os olhos, para eu relaxar… E nessa sessão ele me beijou. Pra mim foi um choque muito grande, mesmo porque quando criança, eu fui molestada pelo pai de uma amiguinha minha, eu ja tinha um histórico disso. Então imediatamente o meu corpo travou, paralisou ali. E eu acho que diante do meu susto, ele também se assustou e falou: ‘por favor, me perdoe, me perdoe.. e ele começou insistentemente a me pedir perdão, que tinha sido maior do que ele, que ele me amava demais’”, relatou uma das mulheres. Segundo ela, Tadashi Kadomoto insistia que ela tivesse um relacionamento amoroso com ele, mesmo responsável pelo tratamento dela.

Uma outra ex-paciente afirmou que começou a se sentir “invadida” durante sessões de terapia particulares na clínica do terapeuta, em Campinas (SP), em um tratamento chamado “frequência de brilho”.

“Em um determinado momento das terapias, ele começou a sugerir alguns tratamentos onde ele pedia pra eu tirar a minha roupa. Ele perguntava: ‘ah, você tá com uma lingerie confortável? Porque hoje o que a gente vai fazer eu preciso que você esteja de lingerie’. E eu comecei a me sentir muito tocada. Ele tocava no meu corpo todo e aquilo começou a me incomodar demasiadamente, era algo que era extremamente desconfortável”, contou.

Outras mulheres que deram entrevista para a reportagem têm relatos parecidos. “Foi numa sessão de atendimento que a gente foi fazer um procedimento e ele perguntou se eu estava de sutiã. Eu falei que sim. Ele me perguntou se eu me importava em tirar a blusa. E aí eu falei que tudo bem, achei que aquilo fazia parte do atendimento. Quando eu deitei na maca ele me falou que provavelmente seria um procedimento que eu ficaria com muito sono, que eu podia acabar dormindo, e que se isso acontecesse no final ele me chamava. Na hora, veio na minha cabeça assim: nem ferrando que eu vou dormir aqui, na sala sozinha com ele, sem blusa”. Essa ex-paciente disse que depois do episódio se deslocou do Instituto.

Força-tarefa

O Ministério Público de São Paulo montou uma força-tarefa para receber denúncias de possíveis novas vítimas. A estrutura é a mesma usada no caso do médium João de Deus e do médico nutrólogo Abib Maldaun Neto. Os relatos podem ser enviados para somosmuitas@mpsp.mp.br e serão recebidos por uma equipe especializada, com sigilo em relação aos dados e às informações enviadas.

Defesa do terapeuta cita indignação

O advogado de Tadashi Kadomoto, Alexandre Wunderlich, disse em nota que a juíza responsável pelo caso que já tramita na Justiça de São Paulo negou o pedido de prisão preventiva de seu cliente e que não vai tornar públicas as provas de inocência porque o processo corre em segredo.

“No caso judicial em que a defesa já teve acesso, é notório que, da própria narrativa da denúncia, se extrai que não há crime – o que ficará claro com as provas que serão anexadas ao processo. Nesse sentido, destaca-se que o pedido de prisão do sr. Tadashi foi negado pela Juíza responsável pelo caso. (…) A magistrada também decretou o sigilo dos autos para preservar a vítima e o acusado – decisão judicial de 29 de outubro de 2020 – o que impede a defesa de apresentar as provas publicamente. Foi igualmente negado o pedido ao Tribunal de Justiça de São Paulo para que houvesse a reforma da decisão da 14ª Câmara de Direito Criminal do TJ/SP”, afirmou Wunderlich.

A nota do advogado diz ainda que Tadashi Kadomoto reafirma a indignação com as acusações envolvendo a conduta profissional dele.

“O sr. Tadashi Kadomoto reafirma sua indignação com as acusações envolvendo sua conduta profissional e confia na Justiça. Por decisão pessoal, o sr. Tadashi está afastado de suas atividades, focado em organizar a sua defesa, para que essa situação seja esclarecida o mais rapidamente possível. Em mais de 30 anos de atuação, o sr. Tadashi jamais teve qualquer questionamento sobre sua conduta profissional e, convicto de sua inocência, agradece às manifestações de apoio que vem recebendo de todos os que o conhecem e confiam no seu trabalho”, disse Alexandre Wunderlich (veja íntegra abaixo).

Conselhos também se posicionam

Como Tadashi Kadomoto se intitula terapeuta transpessoal, a reportagem consultou o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo para verificar se ele está nos registros profissionais da entidade como psicólogo. Segundo a entidade, ele não consta como profissional da especialidade, e que por isso não pode investigar o caso, mas afirmou à GloboNews que, na condição de instituição fiscalizadora da atuação ética da Psicologia, sente a necessidade de reforçar sua posição contraria a práticas profissionais abusivas de qualquer natureza.

Já o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) informou que até o momento não foi acionado e que poderá abrir sindicância para investigar o envolvimento de médicos que trabalhavam com Kadomoto nos casos de abuso.

Íntegra da nota do advogado de Tadashi Kadomoto

“O sr. Tadashi Kadomoto reafirma sua indignação com as acusações envolvendo sua conduta profissional e confia na Justiça. No caso judicial em que a defesa já teve acesso, é notório que, da própria narrativa da denúncia, se extrai que não há crime – o que ficará claro com as provas que serão anexadas ao processo. Nesse sentido, destaca-se que o pedido de prisão do sr. Tadashi foi negado pela Juíza responsável pelo caso (Processo 0028898.72.2020.8.26.0050, 16ª VaraCriminal de SP, Juíza a MANOELA ASSEF DA SILVA, a Magistrada também decretou o sigilo dos autos para preservar a vítima e o acusado – decisão judicial de 29 de outubro de2020 – o que impede a defesa de apresentar as provas publicamente). Foi igualmente negado o pedido ao Tribunal de Justiça de São Paulo para que houvesse a reforma da decisão (Processo 2242249-50.2020.8.26.0000,Desembargador, LAERTE MARRONE, 14ª Câmara de Direito Criminal do TJ/SP). Por decisão pessoal, o sr. Tadashi está afastado de suas atividades, focado em organizar a sua defesa, para que essa situação seja esclarecida o mais rapidamente possível. Em mais de 30 anos de atuação, o sr. Tadashi jamais teve qualquer questionamento sobre sua conduta profissional e, convicto de sua inocência, agradece às manifestações de apoio que vem recebendo de todos os que o conhecem e confiam no seu trabalho”.

G1

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